O presente artigo foi publicado originalmente no Jornal A Tarde em 11/05/16
A
Escola e a Sociedade Disciplinar e de Controle
Apesar dos avanços obtidos, principalmente com a
promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), 9394/96
e da criação do PNE (Plano Nacional de Educação), o contexto atual da Educação
no Brasil é preocupante. Ao adotar o sistema de avaliação proposto pelos países
membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país
passa a desconsiderar importantes variáveis, como as pluralidades sociais e
culturais de suas regiões e mesmo a história de vida e particularidades dos
educandos. Sistemas de avaliação como o Pisa, a Prova Brasil ou o ENEM (Exame
Nacional de Ensino Médio), privilegiam a Língua Portuguesa e a Matemática e
secundarizam as demais áreas de formação, como o desenvolvimento de valores,
criatividade, afetividade, artes, corpo, entre outros aspectos. Convém observar
ainda, o caráter mercantilista formado em torno do ENEM, neste aspecto,
lembrando o sistema do vestibular, com a proliferação de milhares de cursinhos
preparatórios, apostilas e manuais, visando a aprovação neste exame.
A organização curricular e o PPP (Projeto Político
Pedagógico) das escolas, são amplamente influenciados por estes exames,
desconsiderando assim, o contexto sócio-político e as características e
demandas pessoais dos educandos. Em que pese a necessidade de testes de
verificação da aprendizagem, visando ao aprimoramento das estratégias pedagógicas,
e mesmo a constante atualização do ENEM, principalmente no seu aspecto interdisciplinar,
a escola não pode se pautar apenas por esses indicadores, como vem acontecendo.
Assim, nosso sistema educacional tende a ser deslocado
como um subsistema do aparato produtivo,
afastando-se de paradigmas caros à Educação, como a formação de sujeitos
críticos, criativos e partícipes do processo de construção da sua história,
passando assim, a reproduzir interesses empresarias e das classes dominantes,
em um processo amplamente estudado pelo filósofo francês Michel Foucault, em
obras como Vigiar e Punir e Microfísica do Poder, onde ficam claros
o alinhamento da escola a outras instituições de controle e dominação no campo
social, político e econômico.
O cotidiano escolar aponta nesta direção, face a própria
organização física e mesmo pedagógica, que objetivam o controle dos corpos e
das mentes dos educandos, traduzindo-se em um ambiente repressor e
disciplinador, pouco agradável para todos os personagens envolvidos, inclusive
os alunos, o que explica, em parte, a agressividade e o desinteresse. Neste
ponto, ocorre a passagem da instituição disciplinar para a de controle,
fenômeno prontamente percebido pelo conterrâneo de Foucault, Gilles Deleuze. Diante
deste contexto, as pedagogias progressistas tornam-se extremamente relevantes.
Lamentavelmente, e a titulo de exemplo, o conceito de escolas parque,
amplamente defendido pelo renomado educador baiano Anísio Teixeira, são hoje
praticamente esquecidos. Faltam bibliotecas em nossas escolas, quadras
poliesportivas, acesso à internet, e principalmente uma pedagogia libertadora,
que privilegie a formação de leitores, antenada aos novos tempos, com a
inclusão das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) ao processo ensino
aprendizagem, sob a mediação do professor, devidamente preparado para essa nova
dinâmica do nosso tempo.
A Educação, concebida como está, visando à mera formação
para a reposição do mercado de trabalho e superdimensionando exames
quantitativos em larga escala, traz sérios prejuízos aos educandos, que
necessitam ter uma formação também para a vida em sociedade, onde aspectos
éticos e humanos sejam colocados em evidência, além do contínuo letramento
visando à leitura crítica de mundo.
