terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mal estar na modernidade














O filme Sociedade dos Poetas Mortos é um filme clássico do cinema moderno, de 1989, dirigido por Peter Weir e estrelado por Robin Williams (em memória), que faz o papel de um inovador professor de literatura, John Keating, em um tradicional colégio interno, a Academia Welton, nos Estados Unidos de 1959.
Nesta escola, as disciplinas ligadas à área de Linguagens e Humanas são desprezadas, reconhecidas como de menor valor, o que está relacionado ao que a alta sociedade americana realmente valoriza, carreiras que proporcionem status social, fama e poder, questões que mais tarde são questionadas no filme, quando um dos alunos se interessa pela carreira artística, gerando um dos dramas presentes na obra. O professor Keating apresenta-se como criativo e inovador, elevando a literatura a um patamar superior do conhecimento, numa perspectiva artística, sociológica e mesmo filosófica, levando os alunos a adquirirem uma forma livre, questionadora e espontânea no modo de pensar. Neste sentido, a película cinematográfica é extremamente atual, nestes tempos de visão única e majoritária, onde predominam os valores dos grandes meios de comunicação e das classes dominantes. É o que temiam os filósofos da Escola de Frankfurt, entre eles Adorno e Habermas, para quem a racionalidade tecnológica do mundo moderno poderia levar a uma nova forma de dominação cultural.
Desta forma, a Educação tem uma função extremamente relevante, qual seja a formação de cidadãos com uma leitura crítica e ampla de mundo, fato que tem uma sintonia íntima com o filme Sociedade dos Poetas Mortos, um exemplo de que a arte pode ser útil e instrutiva, e não somente diversão, fato hoje predominante na indústria cinematográfica e cultural de um modo geral. Uma clara demonstração de que precisamos das artes e da literatura, nesses tempos tão obscuros.

Erivan Augusto Santana
 Artigo originalmente publicado no Jornal A Tarde, em 14/11/16

quinta-feira, 28 de julho de 2016

UE, Inglaterra e etnocentrismo

















A recente saída da Inglaterra da União Europeia causou grande impacto no mundo moderno, pois poderá vir a significar a implosão de um projeto de união de nações com objetivos únicos e determinados.
 A Antropologia criou um termo muito caro às Ciências Sociais, que é o Etnocentrismo – fenômeno que ocorre quando pessoas, povos ou nações reconhecem apenas a si mesmos como corretos e superiores, que é o que ocorre hoje em grande parte do mundo dito civilizado, como na Europa e nos EUA. A saída da Inglaterra da chamada “Zona do Euro”, ocorre em um momento de crise de imigração, notadamente no Oriente Médio, em razão principalmente da guerra na Síria, como temos visto constantemente pela imprensa. Esses imigrantes que chegam ao continente europeu não são bem vindos, em razão não somente por serem pobres, mas também por conta de seus costumes e sua cultura. O fato é que o Etnocentrismo tem provocado imensos conflitos sociais mundo afora, colocando em evidência a xenofobia e o racismo. A ação inglesa também expôs os limites da globalização, que tem se caracterizado apenas pelo viés econômico, excluindo assim milhões do processo de bem estar social. Fica claro que a verdadeira globalização deve contemplar, além dos aspectos econômicos, também a cultura, a religião e a liberdade de pensamento, sem os quais viveremos permanentemente em conflitos, em qualquer região do planeta.
 Por isso, a Antropologia criou também um outro termo muito humano, democrático e necessário: a Alteridade, termo que vem do latim alter, que significa “outro”. A Alteridade ou Outridade, é o exercício de reconhecer o outro em sua diferença, sem que isso implique julgamento de valor. Na sociedade do conhecimento e da informação, não basta somente conhecer, é preciso também sentir, pois como disse o grande cineasta Charles Chaplin, não somos máquinas, somos pessoas.

Publicação simultânea com o jornal A Tarde 

domingo, 15 de maio de 2016

O presente artigo foi publicado originalmente no Jornal A Tarde em 11/05/16

A Escola e a Sociedade Disciplinar e de Controle




            Apesar dos avanços obtidos, principalmente com a promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), 9394/96 e da criação do PNE (Plano Nacional de Educação), o contexto atual da Educação no Brasil é preocupante. Ao adotar o sistema de avaliação proposto pelos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país passa a desconsiderar importantes variáveis, como as pluralidades sociais e culturais de suas regiões e mesmo a história de vida e particularidades dos educandos. Sistemas de avaliação como o Pisa, a Prova Brasil ou o ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio), privilegiam a Língua Portuguesa e a Matemática e secundarizam as demais áreas de formação, como o desenvolvimento de valores, criatividade, afetividade, artes, corpo, entre outros aspectos. Convém observar ainda, o caráter mercantilista formado em torno do ENEM, neste aspecto, lembrando o sistema do vestibular, com a proliferação de milhares de cursinhos preparatórios, apostilas e manuais, visando a aprovação neste exame.
            A organização curricular e o PPP (Projeto Político Pedagógico) das escolas, são amplamente influenciados por estes exames, desconsiderando assim, o contexto sócio-político e as características e demandas pessoais dos educandos. Em que pese a necessidade de testes de verificação da aprendizagem, visando ao aprimoramento das estratégias pedagógicas, e mesmo a constante atualização do ENEM, principalmente no seu aspecto interdisciplinar, a escola não pode se pautar apenas por esses indicadores, como vem acontecendo.
            Assim, nosso sistema educacional tende a ser deslocado como um  subsistema do aparato produtivo, afastando-se de paradigmas caros à Educação, como a formação de sujeitos críticos, criativos e partícipes do processo de construção da sua história, passando assim, a reproduzir interesses empresarias e das classes dominantes, em um processo amplamente estudado pelo filósofo francês Michel Foucault, em obras como Vigiar e Punir e Microfísica do Poder, onde ficam claros o alinhamento da escola a outras instituições de controle e dominação no campo social, político e econômico.
            O cotidiano escolar aponta nesta direção, face a própria organização física e mesmo pedagógica, que objetivam o controle dos corpos e das mentes dos educandos, traduzindo-se em um ambiente repressor e disciplinador, pouco agradável para todos os personagens envolvidos, inclusive os alunos, o que explica, em parte, a agressividade e o desinteresse. Neste ponto, ocorre a passagem da instituição disciplinar para a de controle, fenômeno prontamente percebido pelo conterrâneo de Foucault, Gilles Deleuze. Diante deste contexto, as pedagogias progressistas tornam-se extremamente relevantes. Lamentavelmente, e a titulo de exemplo, o conceito de escolas parque, amplamente defendido pelo renomado educador baiano Anísio Teixeira, são hoje praticamente esquecidos. Faltam bibliotecas em nossas escolas, quadras poliesportivas, acesso à internet, e principalmente uma pedagogia libertadora, que privilegie a formação de leitores, antenada aos novos tempos, com a inclusão das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) ao processo ensino aprendizagem, sob a mediação do professor, devidamente preparado para essa nova dinâmica do nosso tempo.

            A Educação, concebida como está, visando à mera formação para a reposição do mercado de trabalho e superdimensionando exames quantitativos em larga escala, traz sérios prejuízos aos educandos, que necessitam ter uma formação também para a vida em sociedade, onde aspectos éticos e humanos sejam colocados em evidência, além do contínuo letramento visando à leitura crítica de mundo.

O DIA EM QUE A TERRA PAROU   Esta é uma das canções mais conhecidas de Raul Seixas, o “maluco beleza”, que se dizia capaz ...